quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Como casa de família há algumas gerações, era um sítio cheio de histórias tristes, assim como era triste a história da família lá na aldeia. Porque na cidade ninguém sabe a história do seu vizinho do lado, mas quanto mais caminhamos para o interior, mais isso se desvanece; a história do local começa a misturar-se com a história das pessoas (ou será o inverso?) e passado algum tempo é impossível perceber o que é realidade ou apenas um mito rural...
E a nossa casa tinha a sua quota de histórias, o que fazia dela um local a evitar pelos poucos habitantes que ainda restavam lá na aldeia.

As mais antigas que me lembrava de ter ouvido, tinham a ver com a altura em que fora construída, quando o meu tetra-qualquer coisa avô tinha resolvido que aquele era um bom sítio para construir uma casa gigante para os parâmetros da época. Acho que foi mesmo por causa disso que foi imediatamente encarado como um excêntrico, e foi por causa disso que se tornou logo um assunto de conversa recorrente na aldeia.
Não havia nada que o ligasse aquela aldeia: não tinha nascido lá, ninguém da família de lá era, aquilo era no meio de nenhures, sem qualquer potencial futuro. Não havia nenhuma razão especial para a casa ter sido construída lá. Mas foi.
E como se isso não fosse o suficiente para irritar toda a gente, as coisas ficaram ainda piores quando os habitantes da aldeia perceberam que toda a mão-de-obra vinha de fora. Sim, a casa foi inteiramente construída por gente de fora da aldeia, assim como a maioria dos materiais também foram trazidos de fora. Isto era daquelas coisas de que se falava em reuniões de família (aquelas reuniões de família a que tentava sempre escapar, com as desculpas mais incríveis, mas que nem sempre resultavam...), mas sempre de uma forma mais ou menos incómoda, como se toda a gente, principalmente os mais velhos, quisesse falar acerca disso, mas ao mesmo tempo não quisesse puxar ou desenvolver esse assunto. O que sabia era apenas derivado de comentários esporádicos e de conversas ouvidas entre outras conversas, antes de desviarem o assunto.
Gente de fora, materiais vindos de fora, para um a casa construída por uma pessoa completamente estranha e sem nenhum tipo de laço à aldeia. Ou seja, razões infinitas de conversa.
E como se isso não bastasse, a verdade é que aconteceram algumas coisas durante a construção da casa. Sei que não podia ser mais cliché que isto, mas sim, desapareceram pessoas. As histórias são muito confusas, mas falavam de trabalhadores que desapareceram, de outros que fugiram, de alguns que sofreram acidentes graves e que não tinham qualquer razão de ser. Sim, todas aquelas coisas que vemos nos filmes de terror clássicos e das quais nos rimos, porque não acreditamos. Não sei quantas destas histórias são verdade e quantas são simplesmente o exagero normal das pessoas da aldeia, motivadas pelo medo e pela dificuldade de lidar com qualquer coisa que viesse de fora. Mas era o que sempre tinha ouvido.
O constante fluxo de pessoas a aparecer e a desaparecer fez com que as gentes da aldeia começassem o “boato” acerca da casa ter algum tipo de maldição. Num misto de medo e crenças populares, diziam que tudo aquilo eram maus augúrios, que as casas “sentem” aquilo que se passa nelas, ou seja, aquela não devia sentir coisas boas.
E na família a opinião não era muito diferente.
Desde a sua construção, poucos lá tinham ido, mas ainda menos lá tinham habitado. A primeira pessoa foi o responsável pela construção, que lá viveu até morrer, sozinho, sem grande contacto com o mundo exterior. Era quase tão desconhecido para as pessoas da aldeia como para a própria família. Segundo as conversas, era uma pessoa de mau trato, que não se dava com ninguém. Ora, se a uma casa com “história” acrescentarmos uma pessoa completamente anti-social, temos a receita perfeita para todo o tipo de mitos! Havia quem dissesse que era um local onde se fazia contrabando, havia aqueles que diziam que era um sítio para onde eram levadas raparigas para fins menos sérios, e havia a versão da bruxaria (claro, não podia faltar uma coisa dessas...). Fosse o que fosse, a realidade é que ninguém sabia bem o que ele fazia por lá, porque ele raramente saía de casa e muito menos interagia com o resto da população.
Barulhos estranhos a meio da noite, carrinhas que chegavam com encomendas que ninguém percebia o que eram, empregados (os poucos) que faziam compras sem qualquer sentido, uma espécie de um incêndio pelo meio que se revelou ser falso alarme quando chegaram os bombeiros (e lá na terra os mais velhos ainda juravam ter vistos as chamas a sair das janelas do piso superior, mas a verdade é que quando os bombeiros chegaram não encontraram qualquer vestígio... de nada). Durante vários anos, sempre que algum familiar aparecia lá na aldeia, caia sobre ele um rol de queixas e de histórias, das quais até só se guardavam algumas, as mais interessantes; a verdade é que a casa dava que falar por todos os motivos, mas também é verdade que foi ficando por lá até ao dia em que eu recebi o telefonema.

domingo, 22 de janeiro de 2012

II. A Casa

Sou um gajo da cidade. Pronto, não há problema nenhum de assumir isso. Nasci na cidade, sempre vivi na cidade, não tenho familiares directos fora da cidade, não tenho quaisquer ligações a outros locais que não sejam aglomerados de prédios, transportes públicos, muita gente, muitos carros, poluição, centros comerciais, estádios de futebol, bares e discotecas...
Gosto de sair, sim, mas de forma controlada. Gosto das pequenas escapadelas, mas a verdade é que basta um fim-de-semana. Mais do que isso, é demais para mim: começo a sentir-me perdido, começo a sentir falta de agitação, de barulho, de pessoas, começo a sentir que não pertenço àquele lugar. É uma questão de hábito, eu sei, mas também sei que os hábitos não se alteram de forma ligeira, principalmente quando as pessoas não os querem alterar. E eu gosto de ser assim.
Por isso, quando recebi o telefonema, fiquei sem saber o que fazer...

A casa pertencia à família há algumas gerações, mas só lá tinha estado uma ou duas vezes. A viagem era demorada e cansativa, muitas estradas secundárias e paisagens pouco interessantes. E nem era pela condução, porque sempre adorei conduzir, sempre foi algo que me acalmou, que me permitiu estar um bocado mais só com os meus pensamentos. O problema era estar mesmo afastado de tudo, não ter nada que fazer; era a letargia, o ver sempre a mesma coisa, o não contecer nada...
Era uma casa grande e velha. Pronto, na realidade era sempre assim que a tinha visto. Grande e velha. Grande não por ser realmente grande mas porque tinha 2 pisos, o que não era assim tão incomum naquela zona do pais, onde todas as casa eram assim. E velha porque era... realmente velha. Era uma casa antiga, que nunca sofreu qualquer remodelação além de uma ou outra pintura quando já só se via quase o seu esqueleto ou quando algum familiar um pouco mais interessado neste tipo de coisas resolvia que estava na altura de deitar mãos à obra. Tinha uns quantos quartos no piso superior e uma grande sala no piso de baixo, um sotão onde nunca tinha entrado até esta última visita. Tudo era antigo, desde a casa em si até o que lá estava dentro, os móveis estavam lá desde o início, alguns já em muito mau estado. Uma cozinha fria, muito fria, aquecida por uma lareira que nem sequer se encaixava naquele tipo de lareiras que vemos nos filmes e que nos transportam para um sítio romântico. Não, era um buraco na parede, sempre sujo do fogo e das cinzas por limpar. O telhado tivera problemas desde sempre, mas para isso já não havia ninguém suficientemente preocupado na família. Aliás, só me recordo de saber que lá ia gente fora do período de Inverno, em que não só o frio era (quase) insuportável, como, claro está, chovia dentro de casa. Os quartos não eram pequenos nem grandes, mas estavam maravilhosamente pouco e mal decorados. Porque a juntar à mobília de origem (raramente mais do que uma cama velha e incómoda e uma cómoda minúscula), tudo o que de novo lá ia aparecendo eram coisas antigas que alguém para lá levava, apenas para não as deitar fora. E o melhor era sempre que o fizessem, porque tornava um sítio já por si bastante deprimente num amontoado de tralha que não fazia sentido nenhum.
Enfim, era uma casa velha e feia. Não uma casa de aldeia da qual alguém se pudesse orgulhar ou que pudesse servir de escape para quem gosta dessas coisas.

E depois... depois havia a sua história.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

I. O Sonho

Ontem à noite sonhei que tinha lá voltado, mais uma vez...
Acordei suado, nervoso, com um aperto no peito e quase sem conseguir respirar. Acordei sem saber onde estava e, mesmo depois de acender a luz do candeeiro junto à cama, ainda me senti completamente perdido durante uns momentos...

Claro que o quarto estava vazio, claro que não estava lá ninguém (fantasmas não existem fantasmas não existem fantasmas não existem). Mas cada sombra retinha o meu olhar e fazia-me lembrar o que tinha acabado de sonhar; cada movimento não existente era um movimento real na minha cabeça, tão presente que me despertou por completo. E soube logo ali que não ia conseguir voltar a adormecer...

Como acontecia sempre, o sonho foi demasiado real. Mesmo depois de despertar conseguia ter presenta cada pequeno acontecimento, conseguia rever todos os pormenores, conseguia sentir os cheios, ouvir os ruídos; era quase palpável, e não tinha nada a ver com qualquer outro sonho normal, dos quais geralmente não me conseguia recordar. Quase sentia nos dedos a textura da madeira da porta, quando a empurrei com força para sair; ver as sombras dos móveis a redifinirem-se no meio da escuridão; o calor das chamas de que estava a fugir; o ruído ensurdecedor dos gritos dela, no andar de cima, a chamar o meu nome, a gritar por mim...

E também como acontecia, o sonho fez-me reviver toda a situação, fez-me recordar cada minuto angustiante do que se passou, cada pequeno pormenor que pensei já estar esquecido (ou melhor, escondido...). E isso ainda era pior do que os sonhos recorrentes, o facto de me fazerem relembrar tudo de forma tão vívida. Porque não queria lembrar-me, queria esquecer-me desses dias, tinha feito um esforço enorme para esquecer, para recalcar qualquer pequena memória no canto mais profundo do meu ser. Sim, queria fugir, como também fugi de lá! Mas não é isso que se faz com os maus momentos, aqueles que criam más memórias?! Por isso mesmo, queria nunca mais ter de recordar nada, absolutamente nada do que aconteceu, queria mesmo seguir em frente, viver a minha vida sem estar constantemente a olhar para trás do ombro, sem me assustar com qualquer barulho que não conseguisse identificar imediatamente.

Levantei-me lentamente para ir beber um copo de água. No fundo, queria fazer qualquer coisa para sacudir aquela impressão que insistia em não desaparecer, a impressão de que a qualquer momento tudo podia acontecer de novo. Andei pela casa, acendi e apaguei luzes, reorganizei pequenas coisas nas prateleiras dos móveis, liguei a tv apenas para comprovar que não estava a dar nada. Andei por ali, sem estar realmente a fazer nada, andei por andar, porque não queria estar parado, porque se parasse iria de certeza voltar a pensar naquilo e não queria que isso acontecesse. Mas a verdade é que não me saía da cabeça... Porque quando tentamos muito esquecer uma coisa, ela torna-se ainda mais presente, assombra-nos até não conseguirmos quase respirar, até não nos conseguirmos concentrar em mais nada senão nisso. E por mais que tentasse, não conseguia desfocar, aliás, nem naquele momento nem nos dias anteriores, não conseguia deixar de rever todo o “filme”. Não conseguia esquecer.

Voltei para o quarto. Sentei-me na cama. Peguei no bloco que levava comigo em viagens, o meu “journal”, e numa caneta. Respirei fundo e comecei a relembrar os últimos dias...