Sou um gajo da cidade. Pronto, não há problema nenhum de assumir isso. Nasci na cidade, sempre vivi na cidade, não tenho familiares directos fora da cidade, não tenho quaisquer ligações a outros locais que não sejam aglomerados de prédios, transportes públicos, muita gente, muitos carros, poluição, centros comerciais, estádios de futebol, bares e discotecas...
Gosto de sair, sim, mas de forma controlada. Gosto das pequenas escapadelas, mas a verdade é que basta um fim-de-semana. Mais do que isso, é demais para mim: começo a sentir-me perdido, começo a sentir falta de agitação, de barulho, de pessoas, começo a sentir que não pertenço àquele lugar. É uma questão de hábito, eu sei, mas também sei que os hábitos não se alteram de forma ligeira, principalmente quando as pessoas não os querem alterar. E eu gosto de ser assim.
Por isso, quando recebi o telefonema, fiquei sem saber o que fazer...
A casa pertencia à família há algumas gerações, mas só lá tinha estado uma ou duas vezes. A viagem era demorada e cansativa, muitas estradas secundárias e paisagens pouco interessantes. E nem era pela condução, porque sempre adorei conduzir, sempre foi algo que me acalmou, que me permitiu estar um bocado mais só com os meus pensamentos. O problema era estar mesmo afastado de tudo, não ter nada que fazer; era a letargia, o ver sempre a mesma coisa, o não contecer nada...
Era uma casa grande e velha. Pronto, na realidade era sempre assim que a tinha visto. Grande e velha. Grande não por ser realmente grande mas porque tinha 2 pisos, o que não era assim tão incomum naquela zona do pais, onde todas as casa eram assim. E velha porque era... realmente velha. Era uma casa antiga, que nunca sofreu qualquer remodelação além de uma ou outra pintura quando já só se via quase o seu esqueleto ou quando algum familiar um pouco mais interessado neste tipo de coisas resolvia que estava na altura de deitar mãos à obra. Tinha uns quantos quartos no piso superior e uma grande sala no piso de baixo, um sotão onde nunca tinha entrado até esta última visita. Tudo era antigo, desde a casa em si até o que lá estava dentro, os móveis estavam lá desde o início, alguns já em muito mau estado. Uma cozinha fria, muito fria, aquecida por uma lareira que nem sequer se encaixava naquele tipo de lareiras que vemos nos filmes e que nos transportam para um sítio romântico. Não, era um buraco na parede, sempre sujo do fogo e das cinzas por limpar. O telhado tivera problemas desde sempre, mas para isso já não havia ninguém suficientemente preocupado na família. Aliás, só me recordo de saber que lá ia gente fora do período de Inverno, em que não só o frio era (quase) insuportável, como, claro está, chovia dentro de casa. Os quartos não eram pequenos nem grandes, mas estavam maravilhosamente pouco e mal decorados. Porque a juntar à mobília de origem (raramente mais do que uma cama velha e incómoda e uma cómoda minúscula), tudo o que de novo lá ia aparecendo eram coisas antigas que alguém para lá levava, apenas para não as deitar fora. E o melhor era sempre que o fizessem, porque tornava um sítio já por si bastante deprimente num amontoado de tralha que não fazia sentido nenhum.
Enfim, era uma casa velha e feia. Não uma casa de aldeia da qual alguém se pudesse orgulhar ou que pudesse servir de escape para quem gosta dessas coisas.
E depois... depois havia a sua história.
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