segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

I. O Sonho

Ontem à noite sonhei que tinha lá voltado, mais uma vez...
Acordei suado, nervoso, com um aperto no peito e quase sem conseguir respirar. Acordei sem saber onde estava e, mesmo depois de acender a luz do candeeiro junto à cama, ainda me senti completamente perdido durante uns momentos...

Claro que o quarto estava vazio, claro que não estava lá ninguém (fantasmas não existem fantasmas não existem fantasmas não existem). Mas cada sombra retinha o meu olhar e fazia-me lembrar o que tinha acabado de sonhar; cada movimento não existente era um movimento real na minha cabeça, tão presente que me despertou por completo. E soube logo ali que não ia conseguir voltar a adormecer...

Como acontecia sempre, o sonho foi demasiado real. Mesmo depois de despertar conseguia ter presenta cada pequeno acontecimento, conseguia rever todos os pormenores, conseguia sentir os cheios, ouvir os ruídos; era quase palpável, e não tinha nada a ver com qualquer outro sonho normal, dos quais geralmente não me conseguia recordar. Quase sentia nos dedos a textura da madeira da porta, quando a empurrei com força para sair; ver as sombras dos móveis a redifinirem-se no meio da escuridão; o calor das chamas de que estava a fugir; o ruído ensurdecedor dos gritos dela, no andar de cima, a chamar o meu nome, a gritar por mim...

E também como acontecia, o sonho fez-me reviver toda a situação, fez-me recordar cada minuto angustiante do que se passou, cada pequeno pormenor que pensei já estar esquecido (ou melhor, escondido...). E isso ainda era pior do que os sonhos recorrentes, o facto de me fazerem relembrar tudo de forma tão vívida. Porque não queria lembrar-me, queria esquecer-me desses dias, tinha feito um esforço enorme para esquecer, para recalcar qualquer pequena memória no canto mais profundo do meu ser. Sim, queria fugir, como também fugi de lá! Mas não é isso que se faz com os maus momentos, aqueles que criam más memórias?! Por isso mesmo, queria nunca mais ter de recordar nada, absolutamente nada do que aconteceu, queria mesmo seguir em frente, viver a minha vida sem estar constantemente a olhar para trás do ombro, sem me assustar com qualquer barulho que não conseguisse identificar imediatamente.

Levantei-me lentamente para ir beber um copo de água. No fundo, queria fazer qualquer coisa para sacudir aquela impressão que insistia em não desaparecer, a impressão de que a qualquer momento tudo podia acontecer de novo. Andei pela casa, acendi e apaguei luzes, reorganizei pequenas coisas nas prateleiras dos móveis, liguei a tv apenas para comprovar que não estava a dar nada. Andei por ali, sem estar realmente a fazer nada, andei por andar, porque não queria estar parado, porque se parasse iria de certeza voltar a pensar naquilo e não queria que isso acontecesse. Mas a verdade é que não me saía da cabeça... Porque quando tentamos muito esquecer uma coisa, ela torna-se ainda mais presente, assombra-nos até não conseguirmos quase respirar, até não nos conseguirmos concentrar em mais nada senão nisso. E por mais que tentasse, não conseguia desfocar, aliás, nem naquele momento nem nos dias anteriores, não conseguia deixar de rever todo o “filme”. Não conseguia esquecer.

Voltei para o quarto. Sentei-me na cama. Peguei no bloco que levava comigo em viagens, o meu “journal”, e numa caneta. Respirei fundo e comecei a relembrar os últimos dias...

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